Série documental retrata pela primeira vez toda a jornada dos carreiros de Orizona até Trindade

A tradição dos carreiros de Orizona ganhou, pela primeira vez, um registro audiovisual de toda a peregrinação até Trindade, durante a Romaria do Divino Pai Eterno. A série documental “Quando a Fé Caminha”, produzida pela Skambau Produções, acompanhou os 16 dias de viagem da comitiva ao longo de mais de 200 quilômetros, revelando histórias de devoção, memória, resistência e pertencimento que atravessam gerações.

Idealizada e dirigida por Manoela Barbosa, historiadora, doutora em Ciências Ambientais e gestora de projetos com raízes familiares em Orizona, a produção reúne 11 episódios e mostra desde os preparativos dos carros de boi até a chegada dos romeiros à Capital da Fé. Ao longo da jornada, o público acompanha os pousos, os desafios do caminho, as celebrações e as histórias das famílias que mantêm viva essa tradição centenária.

Responsável pela direção de fotografia e pelos registros audiovisuais da série, Roger Martins é produtor cultural, cineasta preto e aquilombado e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio (Promep-UEG). Nesta entrevista, ele fala sobre os desafios de documentar uma peregrinação dessa dimensão, a construção das imagens e o papel do audiovisual na preservação do patrimônio cultural goiano.

Primeiro, queria saber um pouco mais de você, do seu trabalho, e da sua relação com Orizona. Como esse projeto aconteceu pra você?

Sou Roger Martins, tenho 23 anos, sou um artista preto e aquilombado, Bacharel em Cinema e Audiovisual pelo Instituto Federal de Goiás (IFG – Campus Cidade de Goiás) e Mestrando pelo PROMEP – UEG (Mestrado em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio). Sou apaixonado por Cultura Popular, atuo como cineasta, educomunicador, fotógrafo documental e produtor cultural, desenvolvendo projetos culturais, audiovisuais, educacionais, festivais, pensando principalmente na valorização da cultura, comunidades tradicionais, quilombolas, manifestações culturais, preservação dos fazeres e saberes, nos patrimônios de natureza imaterial, nos territórios do sertão mineiro e goiano.

Esse projeto aconteceu em uma manifestação mútua entre o meu desejo de estar atuando em uma manifestação cultural tradicional da fé goiana, juntamente com o convite da Manoela, em contatos que tivemos anteriormente em outras ocasiões em que nem nos conhecíamos pessoalmente, mas de uma admiração entre nossos trabalhos. Além de tudo, um laço de confiança e coração, pois não conhecia pessoalmente ninguém da comitiva, e não havia passado por Orizona ainda. Sigo acreditando que foi um encontro desses caminhos da vida que nos oferecem diversas surpresas.

Quando surgiu a ideia de transformar os Carreiros em série audiovisual? Teve um momento específico na festa, uma imagem, uma história que falou “isso precisa virar tela”?

A ideia surgiu da Manoela, que é neta de carreiros e possui uma relação com os carreiros de Orizona que se organizam na Associação dos Carreiros – ACAORI. Uma relação de confiança já estabelecida com Manoela há mais de 08 anos, quando iniciaram também um trabalho de valorização e preservação da memória, da identidade regional, através da tradição das famílias que compõe a associação e que seguem em comitivas até Trindade há mais de 30 anos. Durante a pandemia, houve um projeto aprovado na Lei Aldir Blanc e que registrou pela primeira vez, em vários diálogos e participações, o histórico dos carreiros da região, a participação das mulheres, da juventude, das comitivas…uma oportunidade de utilizar o audiovisual como registro, transmissão ao público e acervo as falas e memórias dos carreiros com a realização virtual da Festa dos Carreiros.

Foi ali que Manoela e os carreiros começaram a dialogar sobre a possibilidade de registros da comitiva, algo inédito e que poderia ser construído. Em 2025, Manoela, conhecendo a minha trajetória, me convidou para integrar esse projeto. Senti uma honra enorme por somar em tudo isso e entendemos que só faria sentido a série a partir de uma participação integral em todo o trajeto, para viver e captar as emoções, e assim, valorizar os carreiros, as suas famílias, os devotos do Divino Espírito Santo, as famílias que recebem nos pousos, as pessoas que encontramos nas andanças. Foi uma proposta pensada na experiência vivida ali durante os longos dias de caminhada, esperando ainda, que se possa tornar algo ainda maior.

Pra quem não conhece: o que é ser um Carreiro de Orizona e por que essa tradição resiste há tanto tempo?

Acho que o sinônimo mais autêntico do que significa ser um carreiro de Orizona, é uma palavra de duas letras: FÉ. Simplesmente não consigo explicar com palavras claras o tamanho da devoção que esses carreiros têm, da tamanha força, do acolhimento, da união e do amor. Estão há décadas na jornada, se não me engano, há mais de 30 anos, uma tradição passada por gerações, por tradições familiares e muita fé.

Qual foi o maior desafio de traduzir essa fé e essa cultura para a linguagem audiovisual?

O maior desafio de trazer tudo isso para o audiovisual é tentar transmitir de forma clara e coerente as emoções que ali estão, como são alimentadas, a fé cotidiana. É desafiador passar uma emoção pela imagem, pela narrativa, pela construção.

Durante as gravações, que história de Carreiro mais marcou vocês? Teve algum personagem, causo ou momento na romaria que mudou o jeito de vocês enxergarem a festa?

Difícil elencar uma história, quando todas aquelas que estão ali presentes são únicas. Mas durante o trajeto pude escutar de um carreiro mais jovem que ele foi curado de um câncer, com sua promessa no Divino Pai Eterno, prometendo, que sempre que tivesse forças continuaria honrando e fazendo a caminhada.

Agora para mim, a pessoa que mais me deixou inquietações e muito emocionado, foi o Sr. Emídio, com 90 anos, fazendo todo o trajeto a pé, carreando o carro de boi, sem entrar em nenhum momento no carro para descansar ou algo parecido. Jamais poderia imaginar que um senhor dessa idade, chegaria completamente inteiro sem nenhuma sequela, por mais pequena que fosse. Além de tudo ele guiava o primeiro carro de boi. Ali, eu pude perceber o quão grande são os lugares que a devoção e a fé verdadeira podem nos levar.

Como foi o processo de ganhar a confiança dos Carreiros? Porque estamos falando de tradição, devoção e intimidade. Como vocês entraram nesse universo sem parecer “de fora”?

Foi uma construção geral, entre relação e confiança, o contato e o cuidado de estar adentrando um espaço e ambiente muito sagrado. Manoela já tem familiaridade e uma relação construída. Eu cheguei pedindo licença, apresentado pela Manoela, que já trouxe um acolhimento maravilhoso por todas as famílias no pouso de concentração ainda em Orizona. Tudo começou meio distante, pois não me conheciam, mas durante a caminhada tive oportunidade de passar em cada carro, e conversar com cada carreiro, em mostrar, que além de estar registrado, eu estava ali, de corpo e alma, também vivendo tudo aquilo com eles. Foi indescritível, pois no final da caminhada, parecia que eu os conhecia há anos. Me senti extremamente acolhido ao passar dos dias com eles. Inclusive, tenho contato com muitos deles ainda, mesmo após esse momento. São pessoas extraordinárias, muito especiais, além de tudo, extremamente humildes. Sou grato por ter conhecido cada carreiro da comitiva de Orizona.

A série é documento ou é narrativa? Vocês interferiram, dirigiram cenas, ou deixaram a estrada e a fé ditarem o ritmo?

A série tem a narrativa somente da emoção, nada ali foi roteirizado, pensado com muita antecedência, foi trabalhado em cima dos arquivos dos registros. Então é uma série documental, sem interferências estéticas e dialógicas. Só foi pensado, a melhor forma de transmitir a vivência em cada episódio, dividido ali por temáticas de todo percurso.

Orizona vive os Carreiros o ano todo ou a cidade se transforma só em época de festa?

Acredito que ela se vive o ano todo, com suas lembranças, e principalmente com toda a preparação que antecede a caminhada. Toda mobilização, todos cuidados, todo tratamento, toda logística. Enfim, acredito que vivem tudo isso como uma parte de suas vidas.

Que impacto vocês esperam que a série tenha pra Orizona? É turismo, preservação da memória, orgulho local? Já sentiram retorno da comunidade?

Sinto que é uma forma interessante de um início de salvaguardar essa tradição e essas memórias. Está tudo envolvido, é patrimônio, é turismo, preservação, oralidade, saberes e fazeres, orgulho pertencimento. A Manoela, a ACAORI, a Skambau Produções, o Instituto Skambau e o Instituto Casa Sonho Verde dialogam desde o início de tudo isso para fazer uma celebração as tradições que são um patrimônio em Orizona e em Goiás. O desejo maior da Manoela ao dirigir tudo isso é identificar o retorno disso tudo na comunidade, dos carreiros, familiares e devotos, no reconhecimento de si nas imagens e da própria história, das raízes envolvidas e representadas ali em cada carreiro, cada pessoa que atravessa os caminhos durante a jornada, das pessoas que também recebem a fé em suas casas. Houve um planejamento para que a gente lançasse os episódios esse ano, seguindo um cronograma que fosse compatível com a realidade de preparação e andança da comitiva até Trindade em 2026. Então estamos em um momento de relevância muito grande, muitas visualizações, matérias em jornais, televisão, milhares de compartilhamentos. Creio, que tudo isso, mostrou a força que essa manifestação tem dentro do estado de Goiás e no Brasil.

Depois de mergulhar tanto nessa tradição, o que mudou na forma de vocês entenderem cultura goiana? A série mudou vocês como realizadores culturais?

Eu penso que cada trabalho que faço, eu me transformo de alguma forma, começo a enxergar o mundo com outros olhos. Sinto que saí dessa jornada uma pessoa com mais fé, em acreditar em dias melhores, e poder sentir tudo isso imerso junto à essa manifestação cultural, faz com que tudo seja mais bonito. O que fazemos com amor, carinho e respeito, nos dá inúmeros retornos. Eu não fiquei só registrando, eu vivenciei com eles cada nuance e cada dia dessa caminhada. Creio que é uma das maiores, ouso dizer, se não a maior, manifestação cultural de devoção e fé do Estado de Goiás.

Se daqui a 50 anos alguém assistir a essa série, o que vocês querem que essa pessoa entenda sobre os Carreiros que talvez nem a festa ao vivo consiga explicar?

Que tudo isso existiu, e que ainda existirá. E que todo esse trabalho foi um início justamente para salvaguardar toda essa memória e tradição por trás dessa caminhada. Que a emoção que senti há 50 anos atrás, seja a emoção, que possam sentir 50 anos depois. ( A Redação )

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